segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Poema: Último canto



I
Amigo!... estas canções, estas filhas selvagens
Das montanhas, da luz, dos céus e das miragens
Sem arte e sem fulgor, são um sonoro caos
De lágrimas e luz, de plectros bons e maus...
Que ruge no meu peito e no meu peito chora,
Sem um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De um olhar de mulher...
perfeitamente o vês,

Não sei metrificar, medir, separar pés...
 Pois um beijo tem leis? a um canto um núm'ro guia?
Pode moldar-se uma alma às leis da geometria?

Não tenho ainda vinte anos.
E sou um velho poeta... a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo, a minha juventude
É como uma manhã de Londres fria e rude...

Filho lá dos sertões nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas, de giestas
Onde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu me embrenhava só... as auras forasteiras
Me segredavam baixo os cantos do mistério
E a floresta sombria era como um saltério,
Em cujas vibrações minh'alma ébria bebia
Esse licor de luz e cantos a Poesia...
Mas, cedo, como um elo atroz de luz e pó
Um sepulcro ligara a Deus minh'alma... e só
Selvagem, triste e altivo, eu enfrentei o mundo,
Fitei-o, então, senti de meu cérebro no fundo
Rolar, iluminando a alma e o coração,
Com a lágrima primeira a primeira canção...
Cantei porque sofria e, amigo, no entretanto,
Sofro hoje porque canto.
Já vês, portanto, em mim esta arte de cantar
É um modo de sofrer , é um meio de gozar...
Quem há que meça aí de uma lágrima o brilho?
Pois erra-se sofrendo?...
Eu nunca li Castilho.
Detesto francamente esses mestres cruéis
Que esmagam uma idéia sob quebrados pés...
Que vestem co'um soneto esplêndido, sem erro,
Um pensamento torto, encarquilhado e perro,
Como um correto fraque às costas de um corcunda!...

Oh! sim, quando a paixão o nosso ser inunda,
E ferve-nos na artéria, e canta-nos no peito,
Como dos ribeirões o borbulhoso leito,
Parar é sublevar
Medir é deformar!
Por isso amo a Musset e jamais li Boileau.

II
Esse arquiteto audaz do pensamento Hugo
Jamais sói refrear o seu verso terrível,
Veloce como a luz, como o raio, incoercível!
Se a lima o toca, ardente, audaz como um corcel,
Às esporas revel,
Na página palpita e ferve e freme e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora...
Que lime-se num verso uma cadência má,

Que p'los dedos se contem as sílabas vá lá!
Mas que um tipão qualquer como muitos que eu vejo
Espiche, estique e encolha a tal hora e sem pejo
Um desgraçado verso, e, após tanto medir,
Torcer, brunir, sovar, limar, polir, polir,
No-lo venha a trazer, às pobres das ovelhas,
Como um casto 'bijou', feito de sons e luz,
Isto revolta e amola...
Mas veja ao que conduz
O vago rabiscar de uma pena sem norte:
Falava-te de Deus, de mim, da estranha sorte
Que aniila a poesia e acabo num jogral,
Num lorpa, num boçal,
Que nos recebe a pés, e faz do amor uma arte.
Deixemo-lo de parte.

III
Escuta-me, eu teria um imenso prazer
Se podendo domar, curvar, forçar, vencer
O cér'bro e o coração, fosse este último canto
O fim de meu sonhar, de meu cantar, porquanto...
 

Poema: A Flor de cárcere



Nascera ali  no limo viridente
Dos muros da prisão como uma esmola
Da natureza a um coração que estiola _
Aquela flor imaculada e olente...

E 'ele' que fora um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...

E ele  que sofre e para a dor existe
Quantas vezes no peito o pranto estanca!...
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor tão pura e triste!...
Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma...
[1884] 
[Publicado na "Revista da Família Acadêmica", número 1, Rio de Janeiro, novembro de 1887.] 
 

Poema: Amor Algébrico

Acabo de estudar da ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz sem aura, sem manhã,
A Álgebra criou a mente, a alma mais sã
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e pálido, cansado,
Dumas dez equações os véus hei arrancado,
Estou cheio de 'spleen', cheio de tédio e giz.

É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.
[1884]

Poema: Comparação

"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia.
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,

Que em mim se refletia
Amargamente amena,
A encantadora pena
Quem em teus olhos fulgia.

Mas esta mágoa, o tê-la
É um engano profundo.
Faze por esquecê-la:
Dos céus azuis ao fundo
É bem pequena a estrela...
E no entretanto é um mundo!
[1884]

Poema: A cruzada da estrada

A meu amigo E. Jary Monteiro
Se vagares um dia nos sertões,
Como hei vagado pálido, dolente,
Em procura de Deus da fé ardente
Em meio das soidões...

Se fores, como eu fui, lá onde a flor
Tem do perfume a alma inebriante,
Lá onde brilha mais que o diamante
A lágrima da dor...

Se sondares da selva e entranha fria
Aonde dos cipós na relva extensa
Noss'alma embala a crença.
Se nos sertões vagares algum dia...

Companheiro! Hás de vê-la.
Hás de sentir a dor que ela derrama
Tendo um mistério, aos pés, de um negro drama,
Tendo na fronte o raio de uma estrela!...

Que vezes a encontrei!... Medrando calma
A Deus, entre os espaços
No desgraçado, ali tombado, a alma
Que tirita, quem sabe? entre os seus braços.

Se a onça vê, lhe oculta a asp'ra, ferrenha
Garra, estremece, pára, fita-a, roja-se,
Recua trêmula, e fascinada arroja-se,
Entre as sombras da brenha!...

E a noite, a treva, quando aos céus ascende
E acorda lá a luz,
Sobre os seus braços frios, frios, nus,
Tecido de astros em brial estende...

Nos gélidos lugares
Em que ela se ergue, nunca o raio estala,
Nem pragueja o tufão... Hás de encontrá-la
Se acaso um dia nos sertões vagares...
[maio 1884]

Poema: Verso e Reverso

Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
Abri meu coração.

Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh'alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
De uns olhos de mulher...

Escopro divinal tecido por auroras
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações ardentes
Sublime burilou!

Foi ele que a minh'alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, um dia, ao rútilo clarão.
Foi ele aquele olhar que à lágrima dorida
Deu-me um berço a Canção!

Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
Que brilham num olhar...

E são seus puros raios, seus raios róseos, santos
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
D'harpa da minha dor!

Sim ele é quem me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma,
Mas lágrimas também!

É ele que, febril, a espadanar fulgores,
Negreja na minh'alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito e me mitiga as dores.
É bálsamo e é punhal.

Poema: Ondas (1883)

Correi, rolai, correi - ondas sonoras
Que à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim - trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai - que, audaz, por entre a treva
Do desânimo atroz enorme e densa _
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma senda de luz que diz-se - Crença!
Ide pois - não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
-Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai - às plagas do Porvir!

Poema: Eu Quero 1883



Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver - o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar - os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da so'idão...